O texto pode conter spoilers
"A rede social" tem sido um grande sucesso deste último trimestre de 2010. Portugal não foge à regra, com os resultados da primeira semana de exibição a serem convincentes.
Tendo em conta estes números e o próprio efeito do passa a palavra, já quase toda a gente sabe que «A rede social» é um filme sobre as condições em que surge o Facebook e sobre os intervenientes na sua criação.
O filme de David Fincher centra-se:
· nos computadores;
· na presença dos mais jovens no online;
· naqueles que, aspirando pertencer a dados grupos, procuram inventar novas formas de vida social no universo onde se sentem confortáveis – no mundo virtual, onde o real se dilui e a interacção social está à distância do envio de um pedido de amizade;
· na vertigem de ideias criativas e também de decisões perspicazes que parecem já ter o dinheiro e o sucesso como objectivos maiores. Porque, de facto, o Facebook mexe com a vida dos indivíduos e pretende redefinir a experiência social; mas é também um negócio e o certo é que sempre que alguém adere à rede social se transforma em produto;
· na solidão, porque na última cena do filme vemos Mark Zuckerberg (o criador do Facebook) a fazer “refresh” na sua página de Facebook para perceber se a sua ex-namorada aceita o seu pedido de amizade. O filme termina com Mark a contemplar o ecrã do seu portátil, completamente sozinho numa sala. O jovem que conectou pessoas de 207 países e 70 línguas diferentes, que transformou a maneira como agora comunicamos, que tem uma enorme comunidade virtual de amigos, surge, assim, como um solitário. Este é um paradoxo bastante relevante.
| Imagem I - Cartaz do filme |
Para a personagem Mark Zuckerberg, estudante de Harvard que, no fundo, aspira a ser aceite na estratificada elite da universidade, a vida real é imperfeita e lenta: os rituais de comunicação, o ir ter com as pessoas, o construir e preservar uma relação…é tudo uma chatice! Mark e os seus colegas de curso parecem estar sempre a ver mais à frente. Parecem estar sempre com “as antenas ligadas”. O seu objectivo é mudar o mundo, através das tecnologias. Aliás, ao longo do filme, ouvem-se as seguintes expressões: “This is our time!”, “This is an idea of a generation” e “Arrive in first is everything”.
Na primeira cena de «A rede social», Mark e a namorada Erica estão num café, a conversar. Mas o diálogo entre eles é rápido, perspicaz, motivado e directo. Percebe-se que este filme se foca no que as personagens dizem. E o que dizem denota uma clara consciência do que é a sociedade contemporânea. E o seu discurso tão dinâmico denota como é a linguagem e a comunicação no online, onde tudo acontece num instante.
| Imagem II - Mark e Erica |
Mas voltando a Mark e Erica: no café, chateiam-se e terminam relação. O criador do Facebook, quando percebe realmente o que está a acontecer, pergunta “It´s this real?”. Esta questão talvez marque todo o filme. Distinguir realidade de virtualidade torna-se, a dados momentos, difícil para as personagens. Mesmo para nós, espectadores, torna-se complicado perceber o que é real e o que é ficção, já que pouco sabemos sobre a vida de Mark Zuckerberg. Assim, podemos reflectir sobre o seguinte: estará o Facebook a potenciar uma geração que vive na ilusão de estar sempre conectada ao mundo?
Com o filme percebemos que no online, especialmente no que toca às redes sociais, a simplicidade e a exclusividade são características fundamentais. No Facebook, os usuários colocam a informação que querem online, vão à procura de amigos e conhecidos, comentam fotografias. E fazem-no facilmente porque as ferramentas para tal são intuitivas. Para além do mais, esta rede social chega rapidamente a muita gente porque tudo depende do envio de um pedido de amizade. A questão é: as pessoas que eu adicionei vão adicionar quem? O Facebook é, simplesmente, fixe! E chega, tal como uma personagem do filme de David Fincher afirma, a ser aditivo.
Outra característica predominante do online é a simultaneidade potenciada pelos hiperlinks. E o facto de o filme «A rede social» estar repleto de analepses e prolepses remete para isso mesmo: no filme, assim como no online, nós estamos sempre a avançar e a recuar, a aceder a novas informações e a regressar à sua contextualização, parecendo mesmo que há uma contracção do tempo.
Um aspecto importante a reter é ainda o facto de o Facebook não ser nunca um produto acabado – está sempre em constante evolução, dependendo de novas ideias que possam provocar novas necessidades nos usuários. Esta rede social é, assim, como a moda.
Sites relacionados:
IMDB;
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